1.6.15

"(...) nem tão de perto como borges
 nem tão de longe como novarina
 o título invisível era “o império de costas”
e fiquei pensando em como seria ler
 algo que está de costas
 mas também fiquei pensando em como seria
 ler de costas
 será que saber um título que é invisível
 seria um modo de ler o livro de costas? (...)"


Trecho da apresentação de Marília Garcia​ aos meu livro de poemas da Coleção Kraft.

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31.1.15



editora cozinha experimental: http://editoracozinhaexperimental.blogspot.com.br/

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26.11.13

[Os amantes]

O objetivo do par
de amantes é 
formar a lua 
oculta no sol
e o sol detrás 
da lua.

Exalam de si um sol 
crescente
e mil luas
ao meio-dia.

(Oferecem-se
harém de rapazes minguantes e mulheres douradas
que depois dançam com aquelas argênteas e os homens do sol)

À frente,
o amante é
a poesia
do corpo do amado.

É o esposo de sua esposa.
É a esposa de sua esposa.

Os amantes dos homens de sua mulher
e dos homens dele.
É o amante
de uma multidão de mulheres.
O homem de suas mulheres
e das mulheres de sua mulher.
O amante é o amante do amante
da esposa de sua mulher.
A mulher da mulher de sua mulher.
E o homem do homem de seu esposo.
O amante é o conjunto dos insetos.
Com o primeiro amor e o esquecido,
nele se amam o ancestral e o último
e tem seu corpo educado
pelo silêncio dos líquidos.

É com esta capacidade
de aglutinar
todos os amores
assombrosos
que o amante
transforma o amado
nos astros
e ao seu redor


giram.

1.12.12

A criança e sua sombra

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No seu célebre ensaio sobre o "Estádio do espelho", escrito em 1936, Lacan postulou a constituição do Eu ligado à imagem do próprio corpo. Em algum momento, a partir dos seis meses, antes que tenha adquirido a coordenação motora completa, a criança mostra uma expressão de júbilo ao ver sua imagem refletida no espelho, do que se deduz que, na imagem, a criança reconhece o seu próprio corpo. Embora o infans não tenha condições neurológicas para dominar a organização de seu esquema corporal, exibindo um estado de dependência e impotência motora, ele experimenta uma visão global da forma de seu corpo. Enquanto antes vivenciava-se como um corpo desmembrado  através dessa experiência, a criança antecipa o domínio do seu corpo, achando-se, cativada, fascinada pela imagem no espelho e se rejubila. Por trás desse júbilo, entretanto, oculta-se um logro, fonte da alienação imaginária que perseguirá o humano para sempre.

Ao se tomar pela imagem, o infans identifica-se com ela, mas essa imagem, de fato, não é ele. Ao mesmo tempo que lhe dá a ilusão de unidade do Eu, dele se separa como algo externo, outro. O Eu se forma, portanto, inevitavelmente através da imagem do outro, é o outro que possui sua imagem, com a qual rivalizará. Por isso, narcisismo e agressividade são as duas faces de uma mesma moeda. Além disso, à forma ideal, vislumbrada na sua globalidade num instante fugidio, irrepetível e intermitentemente ansiado, daí para diante, o ser humano jamais conseguirá unir-se. Disse tudo, Lacan concluiu que o Eu é um lugar de desconhecimento, possuindo uma estrutura paranóica. O Eu paradoxalmente se constitui pelo não reconhecimento do que está em si, vendo-se do lado de fora.
Como fruto dessa externalidade, a imagem narcísica passa a ser uma das condições do aparecimento do desejo, pois a imagem do corpo representa o primeiro ponto de engate dos significantes do desejo do outro. Simultaneamente, a pulsão não cabe na imagem, resta sempre uma parcela sexual que fura a imagem. É por isso que o "Estádio do espelho" estrutura, simultaneamente, não apenas o Imaginário, mas também o Simbólico e o Real. (capítulo O corpo imaginário do livro Corpo e Comunicação - Sintonia da cultura. Lúcia Santaella)

22.6.12

semi-joia


a visão das árvores prostrou o pescoço novamente,
há um velcro no espaço da mão
muito fino e veloz
uma passagem translúcida na voz
e ressoa rumo a quarteirões
da autopista com a luz uniforme
de uma cordilheira

- você pensa que eu não sonho
que ignoro a lua nova -

se não pudéssemos contar a respeito
do solstício de inverno, o espaço entre o trevo e o tronco 

seria menor, pois Dionísio sempre nasce obeso no inverno 
e sinto muito por não ter passado ainda
no correio e lhe enviado tudo aquilo
que lhe devo 
ou ter lembrando de que deitados no cimento
contra estrelas
demos
um nome sem cabimento 
- como o trovão nomeia o escuro - 
sem nunca saber sequer
que o tínhamos feito





26.5.12

Pederasta

É que o ser da linguagem, pederasta, me tomou cedo para testes sórdidos e delongados, bem antes do que convinha à minha juventude: estuprou-me para produzir-se, fazendo-me trepar com ela até quando ela quisesse parar. Sou o ser através do qual ela noticia sua maldade. Foucault não quis começar a escrever e nunca conseguiu parar. Defendeu, para o Ocidente-sem-silêncio, a linguagem ao infinito, labirinto de Borges. Todos os seus amantes sabem: não se deve falar de amor. A linguagem é ciumenta. Ela destrói um amor com sua metalinguagem. Ela só permite falar de si, é o Ser Verbum - Aquele que é o que é - emprestado, pura negatividade de fundo, avesso em que nos desnudamos. O Isto é ela, o Agora é ela, o Amor é ela. Tudo é ela e só por isto não somos e podemos ser. Potência determinada em retorno infinito nos estende, pretextos, para esconder bem ao longe seu fim, junto de onde, por ela, escondemos o fim de nossos infortúnios, abertos contra a morte. A linguagem não é homem, não é animal, preso à sua própria voz, boa ou má, a linguagem é mundo em eterno retorno. Potência sobrerreal.